Num instante distraído, num movimento simples, abrupto, de repente; sem nem mesmo desconfiar de alguma conspiração do universo, as circunstâncias rotineiras modificam-se. Como um impactante acidente em que o corpo sai do lugar e assusta-se, as mudanças nos abalam e nos desconstroem . Uma separação amorosa, a notícia de uma doença séria, a perda de um ente querido trazem grandes reflexões sobre nossa existência e nosso estado de humanidade.
Devido a vida agitada atual, esquecemos de que não somos super heróis capazes de enfrentar qualquer situação, seja ela de ordem racional ou emocional. Na anatomia humana não existe um botão 'DELETE' que apague nossas dores, recordações ou sonhos que se quebraram. O que acontece é que quando somos pegos de surpresa por uma mudança ou sofremos uma perda repudiamos o luto, principalmente o público, e o que tentamos fazer, da melhor forma possível, é estarmos "prontos", inteiros, sem sinais vísiveis de tristeza. Então vamos direcionar a maior parte de nossas energias no trabalho, corremos para um curso interessante, entramos em uma academia, tomamos um floral ou, de vez em quando, um inocente anti-depressivo. Colocamos toda nossa angústia e frustração dentro de uma grande "caixa preta", secretamente.
Por causa das atuais e medicinais "fórmulas mágicas" para o alcance da felicidade, passamos a acreditar que não devemos dar espaço para nehuma forma de melancolia ou nostalgia. Resultado: lotamos a caixa preta com nossas mais densas e obscuras emoções até que um dia nos sentimos cansados de carregarmos, sozinhos, fardos tão pesados.
Mas, em algum momento misterioso, descobrimos que diante da mudança existe a passagem para a transformação em direção a um caminho novo. Para seguirmos em frente é preciso nos esvaziarmos, libertar nossas emoções e entregar-se ao próprio eu e deixar-se sentir o que se está sentindo, seja uma imensa dor, seja uma vontade absurdar de gritar até se emudecer.
Penso que não há saídas objetivas para os acontecimentos inesperados e aflitivos que nos perseguem durante a vida. O melhor a fazer é respeitar o próprio tempo de cura , olhando para os novos caminhos que vão surgindo como uma forma de ressurreição.