As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
Carlos Drummond de Andrade
Quando li esse poema pela primeira vez, eu tinha uns quinze anos. Lia e achava belo, profundo, mas não tinha maturidade suficiente para sentir o gosto de cada palavra tão bem escolhida por Drummond. Tratando de um tema universal, o poeta coloca o homem numa posição egoísta quando deseja ter os que amam por perto eternamente, mesmo sabendo que em uma matutina ou vespertina hora se cansará.
Passados sete anos da primeira vez que o li, algumas perguntas vêm em minha mente:
Por que desejamos inconscientemente ou não tornar tudo que amamos infinito?
Já que nunca provamos sequer o gosto do "para sempre", por que temos tanta dificuldade em aceitar o término da vida?
Apesar de ser um sonho da humanidade, seria a eternidade tediosa?
Sobre as coisas que eu não falo
Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.
sábado, 19 de junho de 2010
sábado, 12 de junho de 2010
Por que as loucuras de amor nos enlouquecem?
O que seria uma loucura de amor? Mandar cem buquês de rosas, pular de pára-quedas escrito "eu te amo", cozinhar um prato sofisticado, presentear o amado (ou amada) com uma viagem em um cruzeiro, casar em segredo...? O que seria um loucura de amor? Nos dias de hoje, o amor está associado a tantas "receitinhas" de perfeição que qualquer presente, qualquer demonstração considerada pela sociedade como romântica (incluindo o pedido e um lindo...e pesado anel de noivado), pode fazer pensar que tivemos a sorte de ter ao nosso lado um grande e verdadeiro amor. Doce ilusão...
Eu mesma fui vítima dessa crença. Acreditei que não havia prova maior de amor que firmar um compromisso e subir no altar, fazer os votos, compartilhar a vida... Quando o cupido nos atinge é certeza de que se estar sob feitiço, um encanto possuidor que nos entorpece, vicia, enlouquece. O problema é quando o encanto passa e a consciência retoma seu lugar. É nessa hora que nos damos conta de que amar e ser amado é muito mais do que palavras, cartões, flores, anéis e declarações em público.
Talvez o amor verdadeiro não esteja nas interjeições e nem nos poemas sofridos e delirantes dos românticos. Talvez esteja no silêncio de uma noite fria, num almoço com arroz, feijão, bife e batata frita, numa risada durante um filme piegas, ou numa manhã igual a todas as outras.
Depois de ter sido sua vítima, não acredito mais nas loucuras de amor. Não nas' de amor'. Certamente é ma-ra-vi-lho-so receber e dar presentes, fazer uma surpresa, mas não são símbolos de lealdade, de respeito, de verdade. (se pensarmos bem, numa interpretação mais radical, mais provável que sejam símbolos do capitalismo). Na simplicidade do dia-dia, na padaria, no sofá da salinha de televisão, pode transparecer o que realmente sentimos pelo outro. E é por cada minutinho desses que vale (e muito!) estar com quem se ama.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A maçã
Voltei-me para aquele instante
e ouvi todos os ruídos
que antes eram mesmo apenas ruídos
e agora eram palavra
Palavra inteira, frase. Discurso.
Não me assustei. Compreendi.
E se o barulho da alma tornara-se decifrável
Eu, muito mais possuída do que possuidora,
tinha agora uma nova razão, um novo poder.
E sem medo podia ouvir meu âmago
beber do doce veneno do ego...
saborear o gosto de minha própria essência...
Dormir...e ter ora sonhos ora pesadelos...
Entretanto, quando se existe
há a controvérsia, o interrogatório.
Não me surpreende o julgamento
o céu e o inferno
o sagrado e o excomungado.
que escolher morder a maçã e ser o que se é
pareceu-me ser o fim de um desconhecimento sobre tudo.
O que para alguns seria a metáfora do pecado
para mim foi apenas a imagem da libertação.
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