Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


sábado, 21 de agosto de 2010

Ressaca

Hoje o mar está de ressaca
e eu não me atrevo a me aproximar
as ondas, espumas brancas;
com toda sua beleza e arrogância,
afundam minha coragem, meu êxito
e eu não me atrevo a me aproximar.


Ele está raivoso, mas é atraente.
A cor suave para os olhos...
mas quem se atreve a se atirar?
No clarão de uma manhã de verão
ninguém tenta se esquivar
e logo se atreve a se atirar.


O mar está de ressaca
as ondas, com ódio, arrancam os pés da areia
e os levam para suas profundezas
sem volta, e sem nenhuma esperança.


Quem se preparou para o adeus?
Quem fez a última confissão?
Ninguém se perdoou, só arriscou
entre elas, sem nenhum pensar,
decidiu, e atirou-se.


Silêncio.


Caminhando pela praia, ainda quase madrugada,
encontrei o que restou,
na calmaria crepuscular.

domingo, 8 de agosto de 2010

A IGNORÂNCIA DIANTE DO ERRO

          Não há hipocrisia maior do que ignorar as falhas que cometemos ao longo da vida. Falhamos no trabalho, com o namorado (a), com um amigo querido, e com familiares. Erramos no julgamento do outro e no julgamento sobre si mesmo. Erramos porque instintivamente, ou não, só nos conhecemos como seres inconstantes; ora o sucesso, ora o fracasso, não há como saber quando o acaso (ou o destino, para aqueles que nele acreditam) nos pegará de surpresa; pode ser numa manhã ensolarada de segunda feira ou numa chuva fina de sábado.
         Se viver é estar cada vez mais perto da morte, que segundo a bíblia é a fatalidade resultante do primeiro erro da humanidade, é ignorância não aceitar os enganos e insucessos cometidos, as pedrinhas e pedregulhos que se misturam na estrada da vida. Aceitar os erros não significa desistir de acertar, significa encará-los com a alma livre de preconceitos influenciados pelo olhar desconfiado de uma sociedade ou de uma cultura. Dessa forma, iniciamos um processo de aprendizagem e passamos a ver uma passagem para um lugar novo, antes desconhecido, com outras oportunidades de se ser o que nunca se esperou outrora .
        Há quem pense que depois de tropeçar diante das pedrinhas, e principalmente, dos pedregulhos, está confinado a culpa e ao remorso. Mas, por que se lamentar infinitamente se podemos nos refazer e mudar? Só se permite perder o paraíso quem nunca visitou e construiu residência fixa no país do ‘ quem-sou-eu’. Pior, insistir em algo e não querer enxergar que estamos errando de tanto querer acertar.
         Quantas vezes lutamos por algo que já não nos permite sonhar? Quantas vezes fixamos nossa mente na paisagem destruída por queimadas e longos períodos de seca acreditando que ali seja possível plantar e colher flores? E culpamos o mundo, o médico, o vizinho, o livro, o amante por não nos entender, por não nos deixar ser feliz.
        A verdade é que não queremos perceber o que desejamos, quem somos e o que queremos fazer com a graça trágica e irônica que é existir. Só o que fazemos é continuar olhando para fora, com a visão embaçada, meio branca, quase cegos; junto com o tempo vão se indo infinitas possibilidades de felicidade, mesmo sabendo que viver é estar a todo instante perto do inferno e do jardim do Éden. Nossas quedas provam as tentativas que fizemos com nossos próprios pés, ideologias, linguagem e raízes. Nossa reerguida evidencia que já não somos mais os mesmos. Depois somos uma outra esperança, uma outra beleza, e um freqüente renascimento.