Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


terça-feira, 25 de maio de 2010

O amor e o feminino na saga Crepúsculo: uma breve (e perigosa) análise

          Falta um pouco mais de um mês para a estréia do filme Eclipse, terceira parte da saga do livro Crepúsculo, de Stephenie Meyer, e não tenho o menor problema em dizer que estou muitíssimo ansiosa em assistí-lo. Inicialmente, meu interesse por esse mundo fictício e vampiresco se devia apenas aos personagens ma-ra-vi-lho-sos ( quem não poderia deixar de apreciar o incrível Robert Pattinson e não o deixaria sugar um pouquinho de seu sangue?) mas, olhando um pouco mais de perto para a narrativa e para mim mesma – e todas as outras mortais - percebi que há muito mais na saga do que a beleza indiscutível dos seus mortos-vivos.  
         Mais do que a estética dos personagens, a força do amor impossível (humanos são comida para vampiros por isso ambos não podem ter relações passivas) e a promessa de que todas as barreiras serão quebradas têm encantado as adolescentes e jovens adultas para esse universo. Apesar de já ter sido desmistificada a idéia da existência de um príncipe que salva a princesa à beira da morte e terminam felizes para sempre, percebo que ainda há uma propagação ilusória sobre as relações românticas.  
          O que Bella sente é tão forte que ela acredita que a única forma de ser feliz é estando ao lado de Edward e só há uma maneira para isso ser possível: transformando-se em vampira, ou seja, entregando-se a morte. Negando sua vida e assim recebendo a maldição de ser uma morta-viva, ( isso implica abandonar família, amigos, e sonhos) a personagem poderá viver para sempre com seu amado. Quanto sacrifício para uma heroína do século XXI! Ora, então o que todas as fãs de Bella querem é que ela dê a sua vida a um vampiro que mesmo tendo a abandonado e lhe causado uma depressão, merece tê-la em seus braços por toda sua existência.
         Em meados do século passado, houve várias lutas contra idéias preconceituosas referentes a mulher e seu papel na sociedade tais como o paradigma de que o casamento tem de ser uma instituição blindável e eterna a qualquer preço, a restrição das atividades femininas, sendo a principal ligada à família e ao lar. Felizmente, essas lutas foram vencidas, e hoje a mulher tem um papel atuante na sociedade, é independente e não precisa de um homem para sustentá-la, nem está amarrada a ele para todo o sempre. O que insisto em tentar entender é por que mesmo com toda a mudança do papel da mulher na sociedade e nas suas relações amorosas ainda temos uma heroína jovem cuja vida depende de estar imortal e eternamente ao lado de um vampiro?
           Quando lemos um romance ou um texto informativo, formamos uma opinião a respeito do assunto, fazemos julgamentos, destruímos e formulamos novos conceitos que nos tornam quem somos. Mas, depois de ter como heroína a personagem Bella, quem seremos, afinal? Seremos as mulheres da pós-modernidade, livres e bem resolvidas, que esperam pela promessa da paixão arrebatadora, capaz de nos livrar de nossas inseguranças e anseios? Ficaremos a nutrir as deliciosas esperanças da existência de um amor maior que a própria vida e sofrendo por nossas descobertas frustrantes, até quando? Inspirar-se na heroína de Meyer pode ser tão perigoso quanto deixar-se enganar pela ingenuidade ideológica presente na narrativa de Crepúsculo.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Alice da fábula e as inúmeras alices que estão por aí...

          Assiti semana passada ao filme "Alice no país das maravilhas" e simplesmente a-do-rei! Inicialmente devido ao cenário fantástico e um pouco gótico, que faz qualquer um viajar nas roupas, maquiagem, paisagens...um mundo novo. Enquanto eu vibrava com todo aquele cenário que  tece a narrativa, me deparei com a própria narrativa., a história da Alice e suas ações diante daquele mundo maravilhoso. Um mundo em que se pode ser pequena e grande, onde coelhos cozinham, falam e ainda, podem ser loucos, uma rainha age puramente por egoísmo, e seus sentimentos passionais... um mundo que, assim como o  que chamamos de "real", tem sua face boa e ruim, e que precisa de um herói para se tornar uma terra mais justa e feliz.
            Dessa vez, o herói é a heroína, Alice, uma jovem que foge ao ter de tomar uma decisão que mudaria a sua vida e a vida de sua família. Não muito diferente, no mundo das maravilhas Alice terá de tomar uma nova decisão que poderá salvar a vida dos habitantes do mundo subterraneo e a sua própria.  Não vou contar todo o filme para aqueles que desejam assistí-lo, o que eu fiquei me perguntando ao sair do cinema é por que assim como a heróina de Carrols, nós, mulheres, temos medo de tomar decisões importantes diante do estranho, ou de algum fato que põe toda ordem do nosso cotidiano em questionamento?
         Típico da mulher que tem medo da mudança e de ser heróina da sua própria história. Essa mulher sonha com um mundo menos desigual, menos machista, menos intolerante.  Pura verdade é que  apesar das mulheres terem alcançado um papel ativo na sociedade, a mulher (falo em especial da mulher brasileira) ainda se encontra em um patamar abaixo do homem. Sem falar, que principalmente a mulher brasileira  ainda sofre abusos (de todas as espécies, não só físico, como psicológico) por parte de homens que acreditam estar cumprindo seus respectivos "papéis".   Às inúmeras Alices que estão por aí digo que só há uma saída para nós, mulheres: matar o dragão e beber do seu sangue.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A menina e o mar

“Não consigo. Tenho medo.”



“Não precisa ter medo. Confia em mim.”


           E o homem lançou a mão para a garotinha que tremia diante das ondas do mar, ainda pequenas comparadas as que viriam durante a vida. Deu uns pulinhos, alguns murmurinhos, no entanto, a voz do pai a acalmava, sabia que se algo a acontecesse, ter-lhe-ia para ajudá-la. Quando sentia medo, também sentia uma imensa alegria e era a vontade de vencer àquele mundo de água salgada que a tornaria uma pessoa diferente. Não deve ser difícil, pensou, meu pai está tão pertinho de mim...Preste a segurar firmemente a mão protetora do pai, veio uma ondinha, dessas que fazem a gente se desequilibrar um pouco. A menina engoliu um pouco de água e se assustou. O pai riu e logo a suspendeu. Ela chorou. Chorou. Chorou de soluçar.
          Imediatamente quis sair daquele mundo inatingível. O pai pegou as suas mãozinhas e a afastou daquele universo que ela sonhara desbravar. O choro parou mas o sal continuava na sua pele, agarrado. Era o que ela podia ganhar pela sua ousadia.  Desconfiada do pai balbuciava a frase que ele lhe havia dito. “Ele disse para não ter medo!” Não entendeu por que mesmo confiando e segurando firme em suas mãos, o pai não havia conseguido evitar que as ondas a atingissem. Se seu pai não podia afastá-la do perigo das ondas, quem poderia? Sentiu uma dorzinha no coração e uma frustração, mas logo quando estava na areia, com os raios do sol batendo nos seus cabelos cor de mel, e olhou toda aquela água imensa que parecia não acabar nunca, viu que ninguém poderia mesmo protegê-la. Mordeu o lábio inferior e soltou um suspiro, depois começou a fazer um castelinho na areia, já despreocupada, feliz por não precisar de ninguém para ajudá-la a construí-lo. Mas, certa hora da tarde, o mar fica mais cheio, e a menina começou a perceber que aquele lugar seria levado pelas ondas também. As águas invadiram o seu castelo, mas dessa vez ela não teve medo. Olhou e sorriu, levemente. Desde então ela soube que estaria sempre exposta a outras ondas, algumas pequenas outras maiores, e que quando elas têm de vir, nem pai nem castelos são capazes de evitá-las.
         E longe do mar ela nunca mais esteve .