Falta um pouco mais de um mês para a estréia do filme Eclipse, terceira parte da saga do livro Crepúsculo, de Stephenie Meyer, e não tenho o menor problema em dizer que estou muitíssimo ansiosa em assistí-lo. Inicialmente, meu interesse por esse mundo fictício e vampiresco se devia apenas aos personagens ma-ra-vi-lho-sos ( quem não poderia deixar de apreciar o incrível Robert Pattinson e não o deixaria sugar um pouquinho de seu sangue?) mas, olhando um pouco mais de perto para a narrativa e para mim mesma – e todas as outras mortais - percebi que há muito mais na saga do que a beleza indiscutível dos seus mortos-vivos.
Mais do que a estética dos personagens, a força do amor impossível (humanos são comida para vampiros por isso ambos não podem ter relações passivas) e a promessa de que todas as barreiras serão quebradas têm encantado as adolescentes e jovens adultas para esse universo. Apesar de já ter sido desmistificada a idéia da existência de um príncipe que salva a princesa à beira da morte e terminam felizes para sempre, percebo que ainda há uma propagação ilusória sobre as relações românticas.
O que Bella sente é tão forte que ela acredita que a única forma de ser feliz é estando ao lado de Edward e só há uma maneira para isso ser possível: transformando-se em vampira, ou seja, entregando-se a morte. Negando sua vida e assim recebendo a maldição de ser uma morta-viva, ( isso implica abandonar família, amigos, e sonhos) a personagem poderá viver para sempre com seu amado. Quanto sacrifício para uma heroína do século XXI! Ora, então o que todas as fãs de Bella querem é que ela dê a sua vida a um vampiro que mesmo tendo a abandonado e lhe causado uma depressão, merece tê-la em seus braços por toda sua existência.
Em meados do século passado, houve várias lutas contra idéias preconceituosas referentes a mulher e seu papel na sociedade tais como o paradigma de que o casamento tem de ser uma instituição blindável e eterna a qualquer preço, a restrição das atividades femininas, sendo a principal ligada à família e ao lar. Felizmente, essas lutas foram vencidas, e hoje a mulher tem um papel atuante na sociedade, é independente e não precisa de um homem para sustentá-la, nem está amarrada a ele para todo o sempre. O que insisto em tentar entender é por que mesmo com toda a mudança do papel da mulher na sociedade e nas suas relações amorosas ainda temos uma heroína jovem cuja vida depende de estar imortal e eternamente ao lado de um vampiro?
Quando lemos um romance ou um texto informativo, formamos uma opinião a respeito do assunto, fazemos julgamentos, destruímos e formulamos novos conceitos que nos tornam quem somos. Mas, depois de ter como heroína a personagem Bella, quem seremos, afinal? Seremos as mulheres da pós-modernidade, livres e bem resolvidas, que esperam pela promessa da paixão arrebatadora, capaz de nos livrar de nossas inseguranças e anseios? Ficaremos a nutrir as deliciosas esperanças da existência de um amor maior que a própria vida e sofrendo por nossas descobertas frustrantes, até quando? Inspirar-se na heroína de Meyer pode ser tão perigoso quanto deixar-se enganar pela ingenuidade ideológica presente na narrativa de Crepúsculo.
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