Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

A menina e o mar

“Não consigo. Tenho medo.”



“Não precisa ter medo. Confia em mim.”


           E o homem lançou a mão para a garotinha que tremia diante das ondas do mar, ainda pequenas comparadas as que viriam durante a vida. Deu uns pulinhos, alguns murmurinhos, no entanto, a voz do pai a acalmava, sabia que se algo a acontecesse, ter-lhe-ia para ajudá-la. Quando sentia medo, também sentia uma imensa alegria e era a vontade de vencer àquele mundo de água salgada que a tornaria uma pessoa diferente. Não deve ser difícil, pensou, meu pai está tão pertinho de mim...Preste a segurar firmemente a mão protetora do pai, veio uma ondinha, dessas que fazem a gente se desequilibrar um pouco. A menina engoliu um pouco de água e se assustou. O pai riu e logo a suspendeu. Ela chorou. Chorou. Chorou de soluçar.
          Imediatamente quis sair daquele mundo inatingível. O pai pegou as suas mãozinhas e a afastou daquele universo que ela sonhara desbravar. O choro parou mas o sal continuava na sua pele, agarrado. Era o que ela podia ganhar pela sua ousadia.  Desconfiada do pai balbuciava a frase que ele lhe havia dito. “Ele disse para não ter medo!” Não entendeu por que mesmo confiando e segurando firme em suas mãos, o pai não havia conseguido evitar que as ondas a atingissem. Se seu pai não podia afastá-la do perigo das ondas, quem poderia? Sentiu uma dorzinha no coração e uma frustração, mas logo quando estava na areia, com os raios do sol batendo nos seus cabelos cor de mel, e olhou toda aquela água imensa que parecia não acabar nunca, viu que ninguém poderia mesmo protegê-la. Mordeu o lábio inferior e soltou um suspiro, depois começou a fazer um castelinho na areia, já despreocupada, feliz por não precisar de ninguém para ajudá-la a construí-lo. Mas, certa hora da tarde, o mar fica mais cheio, e a menina começou a perceber que aquele lugar seria levado pelas ondas também. As águas invadiram o seu castelo, mas dessa vez ela não teve medo. Olhou e sorriu, levemente. Desde então ela soube que estaria sempre exposta a outras ondas, algumas pequenas outras maiores, e que quando elas têm de vir, nem pai nem castelos são capazes de evitá-las.
         E longe do mar ela nunca mais esteve .

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