De vez em quando abro uma caixa onde guardo fotos, diários, folhas, cartas, esperanças, decepções...coisas que no momento da raiva deram sorte de não terem sido enviadas ao lixo. Fazia bastante tempo que não abria a caixa da memória. Surpreendeu-me dessa vez. Olhei para algumas fotografias e foi muito estranha a sensação que senti.Cada detalhe era uma experiência única, que seria tão importante para a vida como eu nunca imaginara que fosse possível ser. Cada detalhe estava registrado na cor da roupa, no sorriso, nos olhos, nos gestos, na inclinação do corpo, na imagem de fundo. É o tempo parado, imóvel, preso em um papel.
Quando eu vi as pessoas, os sorrisos e todo o contexto que havia por trás daquela foto, tentei reviver aquela cena, lembrar do que aconteceu enquanto nós ríamos alto, enquanto eu estava ali. As pessoas que nós éramos aquele dia...E me assustei. A garota da fotografia não existia mais. Senti pena deles por não terem sequer desconfiado de nada. Eles não sabiam que a vida é um conjunto de fragmentos, pedaços de histórias diferentes, impossíveis de serem coladas... é um instante após um outro instante...
Ao olhar as fotos e ler a estória daquela história, sou obrigada a perceber que somos um pouco personagens diante da narrativa que vamos construindo ao longo de nossas vidas...no instante presente não somos capazes de enxergar os fatos verdadeiros, as emoções explodindo, as nossas falhas, os pecados dos que são amados por nós, a real beleza e a feiúra das horas. Então tiramos fotos, escrevemos diários... para mais tarde, depois de ter matado toda aquela narrativa, admirarmos aquela vida com todas as suas mazelas e maravilhas, com todas as rachaduras que trincavam aquela felicidade. Talvez o prazer de se guardar um momento para sempre em papel esteja justamente na possibilidade de ver e reviver uma história encerrada e distante da que estamos no momento escrevendo. E o melhor de tudo é olhá-la e enxergar que já somos outros, estamos representando outro papel e então, não resta a menor dúvida de que estamos verdadeiramente vivos.

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