Eu
queria mesmo era contar as minhas histórias, as minhas descobertas, os meus
fracassos, as minhas angústias, os meus desafios. Eu queria era olhar no
espelho e encontrar a mim, com o cabelo do meu jeito, com aquele olhar
peculiar, com a minha maquiagem, com as minhas pequenas bolsas que estão se
formando ao redor dos meus olhos. Existir é muito fácil. Eu existo, ocupo espaço.
Ser é que é difícil. Para SER é preciso,
antes, desprender-se de tanta coisa, desapegar. Abandonar. Parece incoerente, mas antes de SER, é preciso
distanciar-se de si mesmo. Um dia desses,li que para enxergar é preciso
afastar-se do objeto. Para ser, é preciso esquecer. Esquecer pequenos
problemas, mágoas, erros e frustrações. Para ser , é preciso ter uma meta, um
osso, agarrar-se no que se acredita e
arriscar-se, ir em frente.
Nunca
me importei de ser transparente, fiel aos meus sentimentos, as minhas
angústias, mas descubro que num mundo tão obscuro, corporativista, em que se
valoriza a estética e a competitividade,e
a filosofia do TER, precioso mesmo é resguardar
as emoções, as tristezas, os medos, reguardar o SER. Decepções sempre serão
muitas, porque decepcionar-se é resultado da espera, a espera de algo desejado
que não aconteceu. E quem nunca ficou
esperando um ônibus por mais de 10 minutos quando acreditava que não iria
demorar? Quem nunca esperou, no meio de uma briga, um pedido de desculpa que
nunca veio? Quem nunca criou uma utopia para dar mais sentido a vida? Quem nunca pensou ter guardado numa caixinha
um brinquinho de ouro e, depois de procurar, descobre que perdeu na viagem
anterior? As decepções surgem, nos perpassam,
nos atropelam. E devem parar por aí. Não dou a elas o direito de me destruírem.
Deixam-me triste por um tempo, depois chega a hora de seguir em frente.
Refazer-se. Ser. Ser quantas vezes for necessário.
Alguns
se incomodam com o refazer-se. Refazer-se exige reflexão, silêncio, olhar
crítico. Nem todos aceitam o silêncio, compreendem a escolha alheia, acolhe o
outro que é feliz de outras maneiras. Para alguns o mundo vai ser sempre cinza,
pesado , opressor, e com amarras demais para conseguir libertar-se. Para eles,é
impossível soltar as amarras, deixar o barco seguir para outros rios, outros
mares. E aí, começam a achar que já que
o mundo é um lugar perigoso demais, o que existe são regras, que devem ser
seguidas cegamente. Assim, realmente, o mundo fica sem cor, árido,
insatisfatório, sem sabor. A gente vai sumindo até ficar invisível.
Decidi
desapegar, esquecer, arriscar. Deixar as mágoas, os desencontros, as decepções
num cantil pequeno, fácil de “deixar pra lá”, fácil de distanciar do coração.
Quero começar 2014 com o coração leve, com a mente florida e com o corpo são. Com
a alma livre, vem o perdão, a compaixão, o sentimento de que tudo muda, tudo se
transforma. E aí, quem sabe, não more mais em mim a culpa, o medo. E aí, quem
sabe, depois de tudo isso, eu sinta vontade de fazer tortas de limão com mais
frequência.
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