Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


terça-feira, 9 de março de 2010

O Desconhecido

Era o silêncio da culpa que exalava odor de seu triste pelas paredes da sala de espera de um hospital público no Rio de Janeiro. Eu o sentia e também sentia vergonha de mim mesma por deixar-me assustar com o sofrimento do próximo a ponto de querer gritar.
Uma jovem mulher folheava tranquilamente uma revista de fofocas, a outra falava ao celular um alguém informando que chegaria lá pelas dezessete horas da tarde, de modo objetivo e rápido. Uma senhora, com olhos pequenos e tristes, me espreitava, ansiosa para ser atendida o mais cedo possivel. Cada uma dessas mulheres com suas histórias, com seus sucessos, suas perdas, suas mágoas, estava em busca do controle e da cura de seu câncer repleta e eu estava entre elas acompanhando uma tia minha que também fora despedaçada pela doença.
Aos poucos foram desaparecendo os ruídos e surpreendeu-me o silêncio. Era tão profundo que se ouviam todos os apelos, todos os sonhos se rompendo, todos os medos se aflorando. Como lhes corroendo dúvidas, como os cupins que estão comendo lentamente as portas de minha casa. Alguém chorou demais, demais Brigou alguém, alguém Trabalhou demais. Alguém parou de sorrir, alguém parou de olhar, alguém parou de brincar. Alguém reclamou da vida antes que a vida estivesse posta em risco. Alguém não se achava bom o bastante para ser feliz. E agora, tudo o que se quer é a mesma vida que se foi reclamada, e algumas vezes, talvez, pisoteada propositalmente.
Eu visitava um país desconhecido por mim e eu até então parecia ser uma estrangeira Diante de uma cultura diferente e de todas as suas adversidades: impressionada arregalei os olhos, e ficou muito claro para quem me observava que eu nunca havia estado em um lugar como aquele . Eu estava assustada mesmo.
O câncer deixa rastros visíveis, muitas das vezes É Necessário retirar o órgão doente. Mas, não foram esses "rastros" que me impressionaram, mas foi aquele silêncio que começou uma Tornar-se uma invasão.
Levantei-me e fui para o corredor, tomar um café. Comecei a entender que o que estava sentido era não somente uma aspereza do silêncio entre aquelas pessoas era mas a culpa de não saber se suportaria a dor dessa mazela tão enfurecida e destruidora dentro de mim.
Quando retornei a sala de espera o silêncio não estava mais Naquelas paredes descascadas. Algumas pessoas atendidas Sido haviam já, algumas conversavam. Não estava mais assustada. Percebi que o silêncio mudara de lugar: agora ele estava era em mim.

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