Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Fobia

            O ônibus estava lotado. Minhas mãos estavam cheias de cadernos, livros e uma agenda onde registro alguns dos meus pensamentos. O ar estava abafado. Eu e mais umas dez pessoas estávamos em pé, todos os lugares já estavam ocupados. Mal conseguia me equilibrar, e ninguém se quer se ofereceu para segurar minhas coisas. Tinha de fazer tudo sozinha: com uma mão carregava minhas coisas, com a outra me apoiava para não empurrar o indivíduo que estava do meu lado, e ainda, firmar meu corpo o máximo possível para não ficar sacolejando dento do veículo.
             Tinha acabado de sair do trabalho, estava exausta, com uma vontade desesperada de chegar em casa, atirar todo aquele material em cima da mesa, beber um copo de água, sentar no sofá e assistir TV, mas estava em um ônibus apertado, sendo esmagada por pessoas que eu nunca vira antes, e sendo vítima da indelicadeza daquele que me levaria até meu destino. Sentia falta de ar. Tentava não pensar muito sobre como ainda eu estava longe do meu mais delicioso desejo momentâneo, quanto mais eu pensasse mais parecia estar distante de mim.
          Eu precisava respirar... eu precisava muito descer no meu ponto o mais rápido possível. Fiquei muito angustiada. Você precisa de um carro, disse a voz do meu consciente. É, eu preciso.
         Uma senhora que estava sentada na minha frente não parecia tão angustiada como eu. Ela estava serena. Um homem não parava de falar no celular... falava e falava, parecia que estava pedindo a alguém para lhe esperar. Uma garotinha dormia no colo da mãe. Um grupo de adolescentes fofocava sobre um outro colega. Uma mulher ouvia música no seu mp3. Parecia que só eu estava afobada, em um quase surto neurótico.
           Começou a chover. Para piorar mais a minha situação, fecharam todas as janelas. Os vidros molhados, o som do motor, as vozes ruidosas, o barulho da chuva... minha cabeça ia explodir, até que quando achei que não agüentaria mais chegou o meu ponto de descida. Saí como quem se despede do hospício, e me senti mal por pensar assim. Esqueci o guarda-chuva, como sempre. Cheguei em casa ensopada. Gritei dando boas vindas a mim mesma assim que abri a porta da sala. Ali estava a vida segura que eu esperava. Respirei, aliviada.

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