Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


sábado, 7 de setembro de 2013

À gente que se acha demais


      Sempre me atraíram as pessoas que são diferentes de mim. Alguns já me julgaram por isso, outros não disseram sua nobre opinião mas espiavam com ares de repreensão.  E muitos me diziam:  “fulana é sua amiga?” “como é possível, ela é tão diferente de você?” “ nossa, mas vocês têm atitudes tão contrárias, como podem se dar bem?”Às vezes escutei esses comentários e simplesmente ignorei, outras, me senti incomodada e me questionei porque não enxergavam o outro como eu.  Com o tempo, fui percebendo que não havia nada de errado nisso e que o problema é que muita gente tem medo daquilo que desconhece e que, por conta disso, prefere manter distância e julgar, tendo como parâmetro apenas a sua verdade soberana e suprema.
        Não gosto de gente assim. Gente que julga a garota que tem o cabelo loiro com mechas coloridas, ou aquela menina que tem piercing na língua, o menino que gosta de ler revistas de moda e aquela senhora que não tem filhos e vive sozinha. Gente que julga o caráter devido à escolha da profissão, à classe social, à cor da pele, à opção sexual, à aparência física e  religião. Essa gente me entristece. Faz os meus dias serem cinzas, me envelhece e me  envergonha. O pior é que essas pessoas com seus podres  comentários  estão por toda parte, estão na academia, do outro lado da calçada, na fila do banco, no facebook, às vezes até fazem parte do seu convívio. Não tem como escapar delas.  E isso me assusta.
         Tem gente que quando vai à padaria pela manhã nunca jamais cumprimenta a pessoa que está atendendo. Gente que não dá a mínima atenção para a pessoa que faz a limpeza do prédio, que acha desperdício de tempo conversar com os mais velhos. Gente que  ignora o outro porque não o considera com a beleza adequada para poder desfrutar do prazer, quase que orgástico, de sua companhia. Gente que se acha importante demais, sublime demais, nobre demais, boa demais. Gente que acha que merece o céu, o paraíso, o infinito e as sete maravilhas do mundo.
             Quando olho para a minha amiga que vê o mundo sob outra perspectiva diferente da minha, quando escuto meu vizinho falar do que ele acredita que seja Deus, descubro e reafirmo a ideia de que não é possível haver uma verdade única e que não existe uma única maneira de se ser feliz. Descubro ainda como é bonito essa mistura de filosofias, de valores, formas de amar e de se sentir amado, formas de se expressar e de se  individualizar, de ter uma voz no meio desse grande discurso clichê que a nossa sociedade cultua. Uns dias atrás li em uma revista a seguinte frase “Se você se encaixa perfeitamente no padrão da sociedade, acredite, você não é normal”.  Ufa, já estava achando que eu estava beirando à loucura quando pensei que seguindo o ritmo dessa sociedade jamais poderia me sentir plena e realizada.
          Eu gosto de ver no outro aquilo que não sou, gosto de admirar o que o outro cultiva com tanta força e fé, gosto de ouvir histórias que não se parecem com as  minhas, mas que pertencem a alguém que resolveu compartilhar comigo sem medo de ser criticado. E já fui julgada por isso, por escutar tais histórias, pois assim estou “participando do erro” do outro.
Quando estou sozinha, apenas com meus pensamentos, me atrevo a ter esperança de que um dia essa gente soberba, que tem a razão das coisas, perceba o quão insano e triste é acreditar que  para ser feliz tem de seguir um único manual, com instruções inquestionáveis e imutáveis. Atrevo-me a sonhar com uma humanidade mais humana e menos hipócrita.

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