Sobre as coisas que eu não falo



Este espaço é livre, tendo como próposito discutir ideias a respeito de qualquer assunto. Não é um diário e nem um blog para ser levado tão a sério, é para divertir e levar a reflexão. Nem sempre as histórias ou relatos são autobiográficos. São apenas escritos desta anônima que gosta de inventar.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Um Gato

          Não fazia idéia por que estava tão triste. Chovia há algumas horas, aquela chuva bem fininha. Seus pais haviam viajado há uns três dias e só voltariam na próxima semana. Não pôde ir por causa do trabalho e porque queria descansar um pouco, em paz, sozinha. O problema é que se esquecera que havia a tarde de domingo. Já havia feito todos os afazeres da casa, almoçado, conversado a toa na internet, respondido seus emails, escutado música e assistido à TV. Surpreendeu-se com o nada que habitava a casa. Silêncio. Ainda sentada no sofá, seus pensamentos a levaram para um lugar distante, e não tão desconhecido por ela, onde estavam todos os anseios, as vontades, suas decepções e seus pesadelos. Não fazia idéia por que estava tão triste.
                 Resolveu andar um pouco. Andar é bom, pensou. Vestiu um casaco jeans que combinava perfeitamente com sua camiseta branca e calça, também jeans, e pegou seu gurda-chuva e decidiu ir à padaria comprar uns chocolates. A padaria não era longe e logo voltaria para seu tédio profundo. Faltando apenas uns dez passos para chegar em casa novamente, ouviu um barulho. Não prestou muita atenção. Ouviu-o novamente, era um barulhinho que vinha do outro lado da rua. Olhou mais atenta e viu uma caixa. Andou até ela e o barulho era parecido com um miado, ficando mais alto. A caixa estava bem úmida e aberta, quando chegou bem perto viu que era um gato que estava tremendo de frio e molhado. Sentiu uma peninha dele...pegou-lhe e o levou para sua casa.
                A tarde já não estava mais tão cinzenta. Ela secou o gato com um secador de cabelos. O gato era bastante peludo, seus pêlos eram acinzentados e seus olhos eram de um azul profundo. Ele parecia ainda ser novo, não era um gato adulto, devia ter uns quatro meses de idade. Enquanto o chamava de “gatinho bonitinho” observou que uma de suas patinhas estava machucada, escorrendo um pouco de sangue. Após secá-lo, cuidou do ferimento, deu-lhe água e um pouco de ração do cachorro misturada com leite. O felino comeu em desespero, devia estar com muita fome. Coitadinho!...
            Decidiu voltar a assistir televisão e levou o gato também. Enquanto assistia a um programa de humor bem sem graça, acariciava o gato com tanta ternura e amor. O animal parecia ter roubado sua angustia que até uma hora atrás era a sua única companhia de domingo. Agora estava sendo tomada por um sentimento novo, que não lhe pedia nada em troca, não lhe censurava, apenas existia. Com o coração distraído e como uma canção de ninar, o constante barulhinho de chuva fina lhe deu uma preguicinha. Desligou a tv e adormeceu no sofá, com o gatinho ao seu lado, que parecia estar grato pela afeição e pelos cuidados oferecidos por ela. Dormiu como uma criança.
            Alguma coisa fez barulho na cozinha e a acordou. Pensou em quanto tempo devia ter dormido, já estava um pouco escuro, e provavelmente eram mais de seis horas da tarde. A chuva tinha estiado. Levantou-se e foi ver o que tinha acontecido, talvez alguém poderia estar tentando arrombar a porta. Por um segundo, esquecera que havia mais um ser na mesma casa, mas, simultaneamente, lembrou-se que quando dormiu, o gato estava ao seu lado, velando seu sono, mas parecia que ele não estava mais quando ela acordou.
            A sacola com os chocolates estava no chão, rasgada e comida, o tapete tinha uma poça amarela e cheirava a urina, a comida que estava num potinho no canto da área de serviço, estava toda esparramada, e por fim, o bichano havia desaparecido. Chamou-lhe, chamou-lhe ,pixiuiuuuuuu, “gatinhooo”...e nada. Decidiu miar, “miau” “miau”... nada. Desistiu de procurá-lo e foi limpar a bagunça que o animal havia feito. Enquanto limpava o tapete, viu algo correndo, saindo de trás das cortinas. Foi atrás dele, e quando pegou-lhe no colo, o gato lhe deu uma mordida na sua mão esquerda e pulou, correndo para o outro cômodo. Conseguiu alcançá-lo e novamente, pegou-lhe no colo, e o gato mordeu-lhe, fincando os dentinhos um pouco mais forte do que na primeira mordida. Mas que ingrato! gritou. Ficaram duas marquinhas e um pouquinho de sangue apareceu na sua mão.
              Aquela ternura e aquele amor se transformaram em desconfiança e ódio. Já não lhe amava mais nem o queria mais. Não era verdadeiro, era só mais uma forma que usavam para lhe enganar, pois lhe enganar não era difícil, e nem tampouco exigente demais, dando-lhe algum poder já era o suficiente para que ela se considerasse pronta para sentir, para cuidar, para ser ela mesma. Sentiu-se má, entretanto, era hora de fazer o que devia ser feito, para seu próprio bem, pois no final, seu amor próprio a vencia e seu orgulho se tornava uma garrafa de vinho bastante atraente, que já estava a algum tempo ou anos apenas a esperando decidir quando iria tomá-la. Sentiu uma sede de cão e bebeu toda a garrafa. Pegou o gato de uma maneira rude e sem falar uma única palavra, deixou-lhe no mesmo lugar que o encontrara há algumas horas atrás. Ele ficou parado apenas a olhando, mas seus olhos azuis não despertaram nenhum sentimento de bondade, e como se por instinto ele pudesse perceber que ela não mais o perdoaria, o jovem gato seguiu para o fim da rua e desapareceu.
           Um mês depois, enquanto dirigia quase atropelou um gato que cruzara seu caminho. Assustada, não quis parar o carro, mas olhou através do retrovisor se o gato havia se levantado ou se ela o tinha deixado a beira da morte. Não viu nada no retrovisor, o gato já tinha ido embora. Com um olhar perigoso balbuciou:
- “Gatos têm sete vidas”...

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